A uveíte associada à artrite idiopática juvenil (AIJ) é a manifestação extra-articular mais frequente e, infelizmente, quando não diagnosticada precocemente, pode causar danos irreversíveis à visão. Por isso, o rastreamento eficiente funciona como prevenção secundária, ajudando a preservar a saúde ocular e a qualidade de vida dos pacientes.
Além disso, a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP) desenvolveu diretrizes baseadas em evidências para orientar o manejo da uveíte relacionada à AIJ no Brasil, envolvendo rastreamento, diagnóstico, tratamento e monitoramento, de forma que especialistas em oftalmologia e reumatologia trabalhem em conjunto para melhores resultados.
O que é Artrite Idiopática Juvenil?
A uveíte associada à AIJ é, na maioria dos casos:
- Anterior (iridociclite)
- Não granulomatosa
- Bilateral
- Persistente (duração > 3 meses)
No entanto, ela pode se apresentar de forma crônica, recorrente ou aguda. A forma mais comum na AIJ é a uveíte anterior crônica (UAC), que geralmente é assintomática nos estágios iniciais, dificultando o diagnóstico.
Assim, a detecção precoce é fundamental para minimizar a inflamação intraocular e evitar complicações como sinéquias, ceratopatia, catarata, glaucoma, hipertensão ocular e fibrose macular, todas com potencial de causar perda visual.
Fatores de Risco e Características
A UAC está mais associada a:
- Idade de início da AIJ inferior a 6 anos
- Sexo feminino
- Doença oligoarticular
- Positividade do FAN (70% a 90% dos casos)
Em média, a artrite precede a uveíte em 4 a 5 meses. Além disso, um terço das crianças já apresenta complicações oculares no momento do diagnóstico, e a incidência pode chegar a 67%.
Rastreamento e Diagnóstico
O rastreamento oftalmológico deve ocorrer nas primeiras 6 semanas após o diagnóstico ou suspeita de AIJ. Para isso, as avaliações devem incluir:
- Medida da acuidade visual monocular
- Medição da pressão intraocular (PIO)
- Avaliação na biomicroscopia (lâmpada de fenda)
- Fundoscopia
A biomicroscopia pode mostrar inflamação da câmara anterior, sendo um parâmetro sensível para avaliar a resposta ao tratamento. Portanto, ela é essencial no acompanhamento.
Tratamento da Uveíte Associada à AIJ
O manejo eficaz exige comunicação constante entre reumatologistas pediátricos e oftalmologistas. As principais abordagens incluem:
1. Primeira linha de tratamento
- Glicocorticóides tópicos para uveíte anterior aguda e crônica
- Contudo, cerca de 40% dos pacientes não respondem adequadamente apenas a essa terapia
2. Segunda linha
- Metotrexato (MTX) como primeira opção
- Se, porém, não houver resposta em até 3 meses com dose máxima, adiciona-se uma droga biológica
Acompanhamento e Monitoramento
As consultas devem ocorrer a cada 2 a 6 semanas, ajustando a frequência de acordo com:
- Uso de glicocorticóides
- Pressão intraocular
- Grau de inflamação
- Presença de complicações
Manter a adesão ao tratamento é desafiador, porque a doença muitas vezes é assintomática. Então, seguir o protocolo corretamente é essencial para evitar complicações graves.
Desafios e Perspectivas Futuras
Apesar dos avanços, a uveíte associada à AIJ continua sendo um desafio clínico. Por outro lado, cresce a compreensão da sua patogênese.
Ainda assim, faltam estudos focados na identificação de biomarcadores genéticos ou plasmáticos, o que permitiria prever casos de maior gravidade, personalizar o tratamento e reduzir impactos negativos.


